3, 2, 1 e digital!

História famosinha quando o assunto é migração para o digital: de como a Blockbuster desdenhou da até então despretenciosa Netflix. O final da história todos conhecem e se fala disso como se fosse um castigo divino por ter-se desafiado o grande deus digital. Não é bem assim.
Empresas são criadas sobre premissas. A premissa da Blockbuster não era digital e levava em conta um arranjo coerente com o tempo e a tecnologia do momento. E com isso se lançou com muito sucesso no mercado, diga-se de passagem. Mas porque empresas como a Blockbuster e outras tantas não conseguem fazer esse ajuste de rota para o universo digital?
Imagine a molecada e suas bicicletas descendo a maior ladeira do bairro, o ponto de teste de coragem e diversão de todos por ali. A inclinação dessa ladeira representa o tamanho do lucro que um mercado pode oferecer, isto é, quanto maior a inclinação, maior o lucro e maior a emoção da descida. Todos querem fazer o menor tempo. As primeiras pedaladas são o capital inicial e os músculos são os dedicados colaboradores fazendo essa roda ganhar velocidade. E assim eles se jogam morro abaixo. Quanto mais ousada a descida, maior o lucro. Emoção pura.
E eis que subtamente dobra a esquina o carro da tecnologia em velocidade avassaladora.
Nosso pequeno CEO ciclista mete a mão no freio. Mas a razão de parada raramente é suficiente para evitar a colisão. Ele estava “a milhão” morro abaixo para a inveja de toda a turma ao redor. Torçamos para que o final da história seja somente um braço quebrado e uma cicatriz aqui e ali como prova de coragem.
Com as empresas é a mesma coisa. Vejo grandes clientes tentando inverter a premissa e fazer a curva, esquecendo-se do fato de que talvez fosse mais fácil começar do zero numa garagem em Cupertino, ou ali mesmo no seu bairro, ao lado da ladeira.
A mesma coisa acontece com as agências. Boa parte delas vive agora aquele instante entre o perceber do carro e o ajuste possível da rota, nem sempre suficiente dada a massa que precisa ser desacelerada e o tempo que se tem pra isso.
Junto ao carro, grudadinho na porta, está o garoto novo do bairro subindo feliz com o cabelo deitado pelo vento e um sorriso no rosto, usando a tecnologia a seu favor e mudando a regra.
Agora a brincadeira é ver quem sobe mais rápido.