Empreender na pandemia.
Ou um “Conto sobre a ingenuidade”.

Foram 25 anos como funcionário, a maior parte deles como Diretor de Criação de marcas absolutamente incríveis, mas tem uma hora que dá vontade de sair da praia e remar até aquela ilha lá longe. E fui. Acertei a minha saída da empresa quando o coronavírus nem tinha chegado ao Brasil. Confesso que estava me achando muito inteligente em trabalhar de casa, com uma equipe remota montada por projeto e por isso carregando um custo fixo menor. Sabia que tinha gente que já fazia isso mas não entendia porque a maioria ainda não. Mal sabia eu que, depois de um mês, o planeta todo estaria trabalhando da mesma forma.
Seguindo ainda na metáfora da remada para a ilha, já não importava mais se o mar virou ou se estava manso. Eu já tinha partido e seguir ou voltar daria absolutamente na mesma. Mas a vontade de explorar era muito, muito maior. De vez em quando eu ainda ouço gente gritando da praia: “Volta, volta”.
O fato é que a minha musculatura pra remar estava atrofiada. Quero dizer com isso que os “hard skills” e “soft skills” que eu precisava nesse momento eram bem pouco desenvolvidos. Habilidades comerciais, networking, essas coisas. Então esses músculos eu ganharia… remando. Segue o barco.
Aprendi com um amigo que agora eu tinha um novo chefe: o fluxo de caixa. É ele quem determina as decisões que eu teria que tomar. Até agora isso que estou dizendo pode soar muito ingênuo para você que já empreende faz tempo ou que tem uma natureza empreendedora mas, acredite, tudo isso é surpreendentemente novo para mim. Eu sabia disso em um nível intelectual mas lá no “marzão” a coisa é outra.
Alguns aprendizados até o momento: a ilha é um pouco mais longe do que parece quando você olha da praia. Mas também é mais bonita e dá vontade de continuar remando. E remar é uma delícia. As horas passam voando, o trabalho se destila no prazer de fazer, o aprendizado é por hora, você usa suas habilidades no máximo. E o melhor: as conversas passam a ser mais produtivas. Quando fala com alguém raramente sai com menos do que quando entrou. As trocas são ricas e ninguém está ali matando tempo ou se queixando. Tá todo mundo remando. Não me senti sozinho um dia sequer. Sempre encosta um barco e trocamos mercadorias ou falamos sobre o vento e as marés, ou pelo menos um aceno de longe pra sinalizar que está tudo bem. É estranha a sensação de trabalhar mais horas e parecer que se trabalhou menos.
Confesso que ainda não adquiri a mentalidade empreendedora no seu máximo nem assimilei os “soft skills” tão necessários para essa jornada de vendas, que é o coração de qualquer empresa. Mas eu chego lá. É uma coisa que, sinceramente, dá um certo medo mas que aprendi a aceitar.
Ainda que a minha habilidade técnica e capacidade de agregar valor ao negócio do cliente esteja em dia, isso não é tudo. Ninguém rema com um braço só.
Aprendi nos diversos projetos que entreguei onde sou bom e onde nem tanto e acho que me tornei um pouco menos presunçoso. Tem muito trabalho ruim no mercado, mas também tem muita coisa boa, então ajustei minha proposta de valor e vamos para o segundo ano.
E por que estou ficando um pouco mais “cara de pau” já peço para compartilhar esse texto (ou pelo menos um “like”, vai?) Quem sabe não me ajuda a encontrar clientes e eu possa voltar no ano que vem para contar da ilha ao invés do naufrágio.
Mas não sou desses que não dão nada em troca. Convido você para apontar agora a sua proa para um app de música ou para o Youtube e ouvir “Timoneiro” do Paulinho da Viola. Deixei um link aqui. Uma música linda que fala de um jeito brasileiro sobre empreender e que talvez nenhum guru do empreendedorismo possa nos ensinar e menos ainda assumir como verdade.